20 Janeiro, 2010



Sid Vicious, solo, My way.

O garoto que representa o espírito de uma época. Os holofotes caem sobre ele e ele faz aquilo que sabe fazer - todos os seus gestos ganham significados extremos. Uma vida transformada em espetáculo: vícios, violência, paixões sujas, a rebeldia contra o sistema transmutada em dor pungente, que vira ira juvenil. Ele está lá, derretendo-se embaixo das luzes e a plateia aplaude. É o zeitgeist.

Deve ser um dos vídeos mais tristes que já vi na vida.

28 Dezembro, 2009

2009

seguindo a tradição do blog, faço agora a minha retrospectiva sobre o ano que está acabando. bom, não é exatamente uma "tradição do blog" - visto que fiz pela primeira vez no ano passado - mas eu curto esse tipo de coisa brega porque é um baita clichê e eu amo clichês, de verdade mesmo.

vamos lá.

vejo a galera reclamando de 2009 por aí em todo lugar, no twitter, no orkut, no bar, na vida toda. olha, nada contra quem teve um ano ruim, mas é que o meu foi tão bom! ele não foi necessariamente feliz o tempo inteiro, mas foi intenso. definitivamente foi intenso.

no começo do ano, a loucura. estava em um trabalho que não me deixava feliz, então larguei e fui viver a vida. o bom é que tinha muita gente numa fase parecida e todos dispostos a aguentar a labuta do bar nosso de cada dia. nessa época eu fiz muita merda. tipo acordar uma hora atrasada no primeiro dia do estágio novo com uma ressaca dos infernos. hehe. mas nossa... dá saudade. era bom. foi aí que eu adotei meu gatinho, que até hoje é o ser mais odiado por todo mundo, menos por mim. quer dizer, é uma gata, mas nós acostumamos a chamá-lo de gato. beirut. também foi mais ou menos por essa época que eu conheci o nicola.

no meio do ano, o amor. nos primeiros dias, era aquela coisa estranha. a gente era coleguinha e se dava bem, mas sempre havia aquela vontade de conversar melhor, se conhecer mais... enfim, foi ele que nos apresentou ao bill, e isso por si só já bastaria. mas é claro que havia mais. e foi num dia de calor, sentados no chão de um estacionamento, depois de conhaque & rollmops, que tudo começou. e aí veio o medo, porque o meu carinho por ele não parava de crescer e pô, sofrer por amor é foda, né? dá medinho. mas o tempo passou, o medo também, foi ficando só aquela coisa boa que a gente tem quando tá junto. tudo foi se desenrolando de uma maneira tão gostosa, com tudo a seu tempo, que não daria pra, hoje, não ser do jeito que é. eu amo aquele cara e me sinto realmente feliz com ele.

durante todo o ano, trabalhei bastante. fiz coisas das quais me orgulho, outras nem tanto. comandei a TV comunicação e foi um dos aprendizados mais prazeirosos e cansativos da vida. tenho saudades de ser editora-chefe, haha. fiz estágio por alguns meses, depois que larguei o emprego do começo do ano, mas não deu muito certo. saí pra entrar em outro, na tv ufpr, e aí a coisa desenrolou. a experiência foi muito boa. fiz frilas e projetos paralelos, estudei bastante... foi duro. mas foi bom. :)

olha, juro que passei por vários perrengues nesse tempo todo. pensei em desistir, quis começar tudo de novo, olhei para as coisas que fiz e achei uma merda, enfim. mas né, tamo aí. é bom passar por essas coisas porque você sempre precisa reaprender a viver depois de cada uma delas, e acho que isso é uma das maiores belezas da vida.

é isso aí! tomara que 2010 seja tão lindo quanto 2009.

08 Dezembro, 2009

Rebobine

As moscas voam ao redor de uma velha fruteira, uma antiga e empoeirada fruteira verde cor de mosca mesmo, daquelas gordas, pesadas e com um brilho meio furta-cor, que quando aparecem as avós diziam que anunciavam morte. A fruteira, tão sozinha, coitada, tinha com ela umas três batatas somente, que nem frutas eram, mas ela parecia se contentar mesmo assim: cumpria sua função de portar coisas. Nostálgico.

E onde foi que eu vi isso? Era em alguma cozinha escura, talvez meio verde também. Ou então o que eram verdes eram os arames das cadeiras da varanda. Ou os baldinhos com que as crianças brincavam na terra com as mães se desesperando porque lá poderia ter alguma doença. Não sei se isso me dá saudade. É só um quadro vívido na memória. Com cor marcada: lembrança esverdeada.

O que entendo é que se tudo parece estar certo, é só olhar um pouquinho mais para baixo para ver as coisas erradas - podem estar debaixo do tapete. Mesmo assim, lá vem outra coisa que as avós costumavam dizer: "Se alguma coisa parece errada, é porque você olhou demais".

Engraçado é que a todo tempo dizem que sentir culpa pelo passado é uma coisa fora de moda. Não sei, pressinto que essa nova onda de breguice dos anos 80 tenha reavivado nossas saudades e nossos remorsos. Como se vivendo tudo de novo, a gente pudesse mudar alguma coisa. Quem sabe um detalhe aqui, outro ali, e então talvez algum dia a gente chegue aos anos 2000 de novo, mas dessa vez da maneira certa. Sem perdas pelo caminho.

Acho mesmo é que eu andei me perdendo nesses tempos tão entediantes. A culpa está justamente nisso de se perder cada vez mais, mesmo pensando em voltar, e ainda assim cada vez caminhando, caminhando mais à beira do abismo. É tão bonito olhar pra baixo. Acho que a culpa está, na verdade, nessa espera por algum deus ou algo que o valha que saia de suas terras ancestrais, montanhas ou campos, e me tome pela mão e me conte todo o por-vir, ou que pelo menos me olhe nos olhos com seus olhos de tigre branco e me assopre um segredo indígena, que sele minha boca e meus ouvidos e só me deixe ali por um tempo, só me deixe.

25 Setembro, 2009

diferença de pronomes:
ele era o cara;
ela era uma menina.

15 Agosto, 2009

eu queria que você ficasse doente, não por maldade, juro, mas se você ficasse doente, tudo seria mais fácil. eu não teria medo porque você estaria ali nos meus braços e dependeria de mim, e eu seria tudo o que você tem por alguns poucos dias, é, seriam dias, também não quero sua saúde ruim por muito tempo.

eu te faria um cappuccino, tiraria o cigarro da sua boca e te enrolaria no cobertor como um casulo, pra que o calor te fizesse companhia sempre, e não o frio que está habituado a sentir naquelas manhãs tristes. então ficaria só observando a tensão dos seus traços se descomplicarem, até que viria aquela cara. aquela cara de sonho bom. me deitaria ao seu lado, sem coberta, e quem sabe assim eu ficaria doente também e você cuidaria de mim.

23 Julho, 2009

encontros e despedidas

a estrada é o lugar mais solitário que existe. lá ninguém tem pátria, lá ninguém se conhece: todo mundo está indo para algum lugar. o passageiro do meu lado chora e eu não percebo. eu também não sei quais são as velhinhas que se assustam com cada luz alta que aparece no outro sentido, qual delas vê a morte correr ao lado do ônibus e quais são corajosas e só querem chegar. um ônibus todo lotado e nenhuma palavra, apesar de ser o universo maior do mundo, compreendido em alguns raros olhares de inquietação. tantas coisas querendo ser ditas, mas as palavras se calam antes mesmo de nascerem. uma ideia errada, quase sempre de ansiedade, junto com um ronco, vez ou outra corta o silêncio. divide o tempo em dois, três, quatro...

uma vez meu pai me disse pra ouvir com atenção uma música que a elis canta, que diz que todos os dias a vida se repete na estação, tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar. são só dois lados da mesma viagem: o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também de despedida.

venha me apertar, tô chegando!

22 Junho, 2009

Balada

Sangrar-me inteira, não de doer mas de felicidade, para me doar inteira, retirar cada pequena coisa que me compõe, todos os pequenos cantinhos do meu ser, puxar as veias, as artérias, tirar cuidadosamente cada fio de cabelo, e até cada uma das unhas, que tanto me angustiam, remexer as tripas, vazar as lágrimas, a saliva e o suor, bem como todos o ácido do estômago, junto com seus antiácidos e os remédios pra dormir e as pílulas para parar de sangrar (parar de tomá-las). Arregaçar todas as fraturas expostas e também as da minha alma, todos os pequenos momentos em que eu sabia que estava feliz e os outros em que quis morrer, quando senti pena de mim e quando tive saudades. Melhor: todas as vezes em que estive tranquila. Todo o meu desespero, meus impulsos, meu querer maior do mundo, tudo que me assusta e me faz puxar a coberta na hora de dormir, tudo que eu mais amo. Meus arranhões nostálgicos no joelho e minhas mãos rabiscadas, meus olhos ruins, minhas ideias cansadas, meu eterno medo e minha admiração por tudo que tem qualquer coisa de vivo. Toda a minha ternura, minhas coisas boas, meu sorriso, aquilo que se sente quando vê o mar, meu sono, meus sonhos... Empilhar com carinho todas as partes à sua frente e fitá-la por um ou dois segundos antes de eu, essência, me juntar a ela. Tudo quanto sou ou já fui, tudo que poderia ter sido mas não, o que vou ser, tudo embalado em fita amarela, pra te entregar.

12 Junho, 2009

tudo tão bom, tudo tão bom, tudo tão bom

o contorno dos prédios ao amanhecer preenche os olhos. o barulho dos pássaros brincando dá naturalidade ao concreto. é tudo tão coeso e tão bom que sinto até um agradável aroma que recorda os tempos de infância. talvez sopa. é isso. sopa da vovó, com legumes. e tudo se completa com essa melodia. uma sinfonia completa. bravo!

gostaria que tudo isso estivesse lá quando o dia amanhecesse. e um desesperado ato diz para me manter ativo, mas as forças físicas me forçam de tal maneira que não resisto.

e acordo, e lá está o prédio. lá estão os trabalhadores. lá estão os pássaros, as nuvens, a vovó cozinhando na janela e o vizinho a treinar violão. tudo uma plena sinfonia, desesperada para ser ouvida.

por pupo, em um dia especial

07 Junho, 2009

passado no céu

conversávamos hoje sobre uma ideia do barthes, que diz fotografia é a imortalização de um momento impossível. porque quando você tira uma foto para eternizar alguma cena, você não está vivendo a tal cena. você está fotografando. e aquilo que fica no papel é apenas uma fração de instante que nunca, nunca mais vai existir de novo, só foi real por pouquíssimo tempo. é como olhar para o céu e ver as estrelas que já morreram ou então para uma árvore que ainda conserva as folhas secas: é ver o passado.

ah, eu sou só um grande coração, deixa pra lá.

27 Abril, 2009

Abismo

Voando ao meu lado está ele, me olhando com olhos que não sei o que querem dizer. Me toca a mão enquanto atravessamos o oceano.

Em cima de mim está ela, tão fraca, tão triste, mas tão alto e sempre acima. Olha pra mim pra ver se estou bem e para os lados por medo. Voando assim, nem parece aquela de antes, que só se arrasta, mas nunca por querer.

Mergulhamos no abismo e aí eu vejo todos os que voam atrás, me seguindo, e essa liderança não é por merecimento ou escolha, é só porque o sonho é meu. São todas as pessoas do mundo. Todos que um dia já cruzaram meu caminho, mesmo que eu não tenha reparado em seus rostos. Os amores, as tristezas, as decepções, aqueles que seguraram minha mão e os outros que me disseram coisas ruins, mesmo sem querer. Todos os personagens de livros que se tornaram companhia para a solidão, os ídolos, os cantores tristes com suas músicas de partir o coração, os professores que me falaram para ir em frente e também os que não sabiam meu nome, os cachorros, os gatos, os coelhos imaginários... Eles vão me seguindo para onde vou e o peso nunca é forte nos ombros. Porque eles estão atrás de mim, apesar de ainda assim me dizerem sempre a direção.

16 Abril, 2009

As flores do vento chamam meu nome e sussurram que lá o tempo é mais doce. Mas há um nome gravado em minhas pálpebras que deixa tudo mais pesado, e mais denso, e mais escuro, e o nome também está cravado em meus dedos e se imprime em tudo que toco e vejo, e me impede de ir.

Olho para os lados e o vento sopra e diz coisas bonitas, mas percebo que os móveis do quarto estão todos no teto, as janelas estão abertas, e todo mundo está lá, e querem sair, e me puxam para a janela, e os móveis todos caem, e tudo é tão bonito, e colorido, e festivo, e todos se jogam pela janela e sopram pra onde o vento vai, e tudo dança ao meu redor, me pegam pelo braço e assopram em meu ouvido, e dizem 'vem', que quando olho pra mim estou inerte, ridiculamente inerte, e todos já se foram, cada um para seu canto, soltos, e eu fico, e eu choro.

'É o crepúsculo', dizem, e tudo parece bom e correto, eu tenho que ir, tenho que sair, mas o nome está lá, em tudo, e até ele me olha e diz 'vai', mas há o peso, ah, o peso, porque o nome sempre muda de nome, e o que se fez de toda a leveza do mundo? Deve ter morrido junto com meu avô, que quando foi não disse nada, mas não deixou dúvidas, não deixou tristeza, não deixou quase nada a não ser poucos e vagos gestos, apenas um 'oi, negona' e alguns livros e mapas, quem sabe esses mapas algum dia me levem até ele, pois são mapas dos céus, mas quem sabe esses mapas não levem a lugar algum, só a um terço que persiste, que é jogado, perdido, achado, mas sempre está lá, e isso dá tantas esperanças a um coração tão cansado de ter esperanças.

Se apenas eu fosse, e se tudo parasse, mas o vento é tudo que mais desejo, que é sossego e desespero, que então pergunto o que foi feito de toda a calmaria do mundo? Foi-se junto com ele, e de todos os outros que saltam pelas janelas e vão embora, mesmo os que não sopraram com o vento e ainda estão por perto, mas se foram, e essa leveza, se essa leveza existisse, se eu pudesse sentir, mas ela só leva tudo embora e me deixa aqui, porque há esse nome pesado sempre mudando em minhas pálpebras e em meus dedos, e em tudo que toco e vejo, e tudo que sinto e desejo, nos sonhos e em todas as pequenas coisas, mas eu acabei me afeiçoando a ele, o peso fica aqui, porque sem ele tudo seria mais leve e então eu não saberia o que fazer, eu fugiria de novo, e mais uma vez, sempre procurando o leve escondido, mas tudo acaba se tornando pesado. E não acaba, não acaba.

08 Abril, 2009

você inspirou as cores

01 Abril, 2009

É como acordar quando todos já foram dormir. Abrir os olhos, ver aquela luz que caminha pela fresta da cortina e sentir a respiração profunda da casa, em que cada mínimo gesto carrega o horror de ser alto o suficiente. Acordar e sofrer o silêncio asfixiante da noite finda; ouvir a música desajeitada dos primeiros pássaros que - coitados - não tiveram chance de gargarejar ou pigarrear antes de cantar.

E duvidar da cor do céu e das pessoas que acordam cedo, duvidar se se está acordado ou se esse cenário lânguido só existe realmente em sonhos,

- esse pequeno espaço entre alguns instantes de tempo - que horas esse momento é real? -,

o vôo desajeitado de um mosquito do calor; o alaranjado das lâmpadas da rua virando sol. Os passos fúnubres pela calçada, o arrastar-se automático de quem faz o mesmo percurso todos os dias, todos os dias 365 passos e não se passa um ano, mas se chega até o ponto de ônibus, uma corridinha para atravessar a rua e aí não dá pra contar os passos, pois variam, e mais alguns outros tantos, em outros locais e por outros pés, todos caminhando diferentes números para chegar ao mesmo lugar.

Todos indo e você acordando. A casa suspira, e se incha e retrai tanto que chega a parecer um quase-murmúrio. Algum movimento ao fundo - será gente? O caminhão de lixo que passa vagaroso, lúgubre. E um cheiro de saudades tão forte nos lençóis... Então talvez você pense: "Passo tanto tempo aqui, nesta cama, que muito de mim já deve ter ficado nas fronhas, e no canto da parede, e na pontinha do endredon onde encosto a boca, que assim, quem sabe, se um dia eu não dormir aqui, a cama sonha sozinha".

26 Março, 2009

tudo perdido, o corpo cansado, o colapso, as expectativas grandes, e tudo que se quer é um abraço de qualquer pessoa do mundo, as músicas e os filmes e os comerciais de margarina só te fazem chorar, e o travesseiro te faz chorar, e o olhar do gato te faz chorar, e as pessoas te fazem chorar, e o mundo te abraça e você não agüenta de falta de ar, e o mundo te judia, e uma frase solta de um quase-refrão em um carro qualquer te mareja os olhos, e mareja o estômago, e alguém que te lembra outro alguém em algum lugar e te lembra uma situação específica, e essa situação era tudo que você queria, e esse alguém te lembra tanto e ao mesmo tempo significa tão pouco e tanto, e esse alguém te lembra tudo que você foi e ficou pra trás, e você fica feliz, e você não agüenta mais, e então esse alguém aleatório te abre as portas da sensibilidade de novo, e você chora sem saber por que, mas sabendo sim, que é por tudo que nunca mais vai existir, mas que já esteve tão presente e tão palpável, era uma coisa tão palpável que inundava tudo, mesmo só existindo em um lugar específico e nem sendo real, só que isso te pega pelas entranhas e você se pega pensando em como kerouac estava certo quando dizia que toda escrita deveria ser instantânea, mesmo com o tanto de clichês que isso acarreta, porque esse monte de clichês é tudo que nós somos e que nos foi ensinado desde que éramos crianças e não tínhamos noção de nada dessa vida e que nunca nem suspeitávamos que um travesseiro nos faria chorar ou muito menos que um dia nós deitaríamos em um chão frio ouvindo uma só música no repete e em todo refrão você choraria, não por causa da letra, mas porque ela te passa tantas emoções com apenas um ‘ooooh’, e você sabe que essa escrita sem pontos e nem parágrafos é o maior clichê que poderia existir, só que de uma forma ou de outra é apenas tudo o que você sabe fazer, pois as coisas vem chegando e não há tempo para pontos e parágrafos e muito menos para estruturações e escolher palavras para não repetir, e nem para sinônimos e nem para quase nada do mundo, para quase nada do mundo há tempo, há tempo, sim, para tudo que não precisa e não tem razão de ser, mas você escolhe usar esse tempo para se lembrar e sofrer, e ouvir músicas deitado no chão do quarto, quando tudo o que você queria mesmo era sair por aí à noite sozinho, talvez ouvindo a música em algum fone de ouvido, ou na cabeça, ou ao longe em alguma festa qualquer, mas tudo que acontece é ficar parado, parado, e lá se vai mais um dia, e você não viu as pessoas que queria ver, mesmo as que você não conhecia e que cruzaria, por acaso, em alguma esquina, ou sentaria do lado no ônibus, e quem sabe essa pessoa estaria usando o seu tempo também para lembrar e sofrer, e talvez você olhasse para os seus olhos e por uma fração de segundos haveria uma lágrima, mas você não perceberia, porque você nunca encara as pessoas na rua ou em ônibus, pode ser constrangedor por algum motivo qualquer, e essa pessoa não choraria em lugares públicos, porque pode ser constrangedor por algum motivo qualquer, mas e se não fosse, e se você visse, e se houvesse coragem, e se as mãos se tocassem, por um segundo que seja, seria um segundo que valeria uma vida, mas não existe, só existem pessoas que se parecem com outras e te lembram alguma coisa e te fazem chorar pelo simples fato de não existirem mais, e aí tudo se perde

e então vem a vida e te abraça mais uma vez.

11 Março, 2009

Brilho eterno

Eu provavelmente não devo ter medo maior do que o de esquecer. Talvez tenha tanto medo porque sei que isso está muito presente na minha vida, esse negócio imbecil de ter sempre um turbilhão de pensamentos na cabeça que vai passando por cima de todas as coisas que eu gostaria de lembrar depois. Às vezes são coisas estúpidas, como o nome do cara que que atuava no Mistério da Economia no período da ditadura (depois de googlear, vi que é Delfim Netto). Outras vezes são coisas realmente importantes, como uma história interessante que se passou comigo ou com algum dos meus amigos. Ou alguma piada. Ou alguma teoria maluca espírita do meu pai.

Fato é que esses dias vi na Nobel um livro que se chama "Onde deixei meus óculos?" e tive muitas ganas de comprar. Cheguei a ler alguns trechos e já ia me preparando para perder R$49,90 da minha poupança quando vi que ele era destinado a um público muito específico: os idosos. Bem, eu tenho 21 anos. Não que eu já tenha perdido meus óculos, mas acho que isso seria realmente a gota d'água. Enfim, coloquei o livro de volta na prateleira e fui disfarçar a minha frustração dando uma olhada na seção de variedades.

Não que eu tenha tido grandes problemas com a falta de memória, do tipo perder compromissos importantes ou ser relapsa na faculdade ou no trabalho. Eu sou bem responsável nesse sentido. Mas as coisas que realmente interessam estão indo embora, sumindo com o vento. Chega ao ponto de, depois de uma coisa bem memorável, eu parar tudo e prestar muita atenção ao meu redor: como está a luz, o cheiro, as cores, a cara das pessoas naquele momento, o que eu estava sentindo... Mas daí acaba que eu vou me lembrar só desse quadro específico que eu montei, e não do emaranhado de coisas e acontecimentos que me levaram a pensar que dada situação precisaria guardar na memória.

As pessoas me contam seus medos e é sempre mais ou menos a mesma coisa: medo da morte, de ficar sozinho, de não amar mais ninguém, de mimimi, de blablablá. Mas nada nunca vai superar o medo do esquecimento. Porque daí pra quê vida? Pra quê viver? Pra quê sofrer tanto, amar tanto, se nem isso vou levar comigo? Por quantos caminhos vou precisar passar, quanta gente vou ter que conhecer, quanta monotonia vou ter que aturar, quantos perrengues vou ter que aguentar, pra um dia tudo ir embora? E o pior, aos poucos. Minhas coisas já estão indo. Alguns momentos eu faço tanta força pra manter sempre vivos na memória que acho até que acabo fantasiando um pouco. Lembro de coisas que nem vivi, a partir de fotografias que minha vó mostra.

E é um saco isso. Tentar lembrar uma coisa simples e não conseguir. Daí faço força, tento, e nada. Até cheguei a pensar que tenho esse problema de memória um pouco por preguiça, porque posso sempre perguntar a alguém do meu lado para ter a resposta. "Como é mesmo aquela palavra? Escarafuncho?", aí a amiga não sabe, eu googleo e é, pois é, realmente, escarafunchar é remexer na terra como as galinhas (definição do Priberam), investigar, procurar com minúcia. Enfim. Fazer o que eu faço com essa minha memória enferrujada.

Coisas, não se percam por aí. Pequenos momentos que eu tanto prezo, não me abandonem. A vida já é tão fugaz... Se eu perder essas pequenas felicidades, nem sei o que será de mim. Afinal, precisava dormir, mas estou escrevendo aqui para não esquecer amanhã de tudo quanto eu queria dizer hoje.

"Feliz é o destino do inocente,
Esquecido pelo mundo que ele esqueceu
Brilho eterno de uma mente sem lembranças".

(Alexander Pope)

06 Março, 2009


um cigarro pra escrever, um gato no ombro, uma cerveja para matar a sede, um raio de luz laranja pra fazer sorrir, o dia inteiro lá fora, a noite inteira aqui dentro, a noite lá fora, o dia aqui dentro, o tempo, o tempo, o tempo, as coisas todas, coisinhas, o gato no colo, os livros serenando, a vida lá fora, a morte lá fora, todas as sinapses e emaranhados e tudo, todos os corações que pulsam forte, a grande nostalgia do futuro, um carinho, alguma esperança, algo em que se apoiar, o gato arranhando, os restaurantes fuleiros, o mau-cheiro, a vastidão toda, as pessoas indo e vindo, indo e vindo, a vida sendo uma eterna rodoviária, as montanhas, o mar, ah, o mar. as pessoas, ah, as pessoas. os amores, ah!, os amores.

e eu perdendo tempo.

10 Fevereiro, 2009

Pátria minha

Voltei há exatamente uma semana para a minha terra de origem. São sete dias que me separam de algo completamente diferente, como se fosse uma outra vida que eu mantinha em Curitiba. Não sei explicar exatamente o que mudou. Só sei que os ares daqui me botam comovida como o diabo.
Cada pequeno detalhe, que antes me era tão familiar, agora é uma novidade. A primeira coisa que se nota ao chegar aqui é o bafo quente que bufa sem parar. Não dá sossego nem à noite, o que nos obriga a todos a dormir com o ventilador ligado no último. Tento me lembrar de como eu fazia para permanecer viva em outros tempos. Quando, por exemplo, eu era criança e tinha medo de dormir sem me cobrir com o lençol. Não sei como sobrevivi a tantas noites escaldantes e tive saúde suficiente para ir para a escola de manhã com aquele uniforme de poliéster. Ou então como eu conseguia sair por aí de bicicleta às três horas da tarde, ou brincar de handeball louco (a especialidade da garotada do bairro) naquela pracinha calçada com pedras que ferviam à luz do sol. Lembro até que a grama esturricada nas extremidades do nosso campinho serviam como marcação para as duas traves do gol; só faltava colocar alguns chinelos por cima para ficar mais claro para os jogadores afobados em marcar. Havia me esquecido de tudo isso, não por não sentir saudades, mas por puro e banal esquecimento, que não tem porquê, acontece, simplesmente.
Ontem fui para o bar com alguns amigos. Apesar de não haver esquecido, tampouco me lembrava com clareza de como é a noite mariliense. Não importa quantos bares têm na cidade: todo mundo vai para apenas um. Se você quer sair, tomar uma cerveja geladinha e não sabe para onde seus amigos vão, não há dúvidas: vá ao Chaplin. Ele é caro, não dá pra pedir nem uma porção de fritas, mas dá todo tipo de gente. Desde nós (o pessoal mais esculachado do noroeste paulista) até as meninas de cabelo amarelo alisado com chapinha e os meninos que usam regata para mostrar os braços e ganhar as meninas de chapinha. Bem, estava no bar e fazia calor. Havia algumas máquininhas, como postes, que jogavam vapor de água para refrescar a galera. Estávamos lá, suando, bebendo a autêntica Brahma agudense que não existe em nenhum outro lugar do mundo. E ela estava trincando... Isso me fez pensar. Esse pedaço de estado paulista é intrigante.
Marília é, sem dúvidas, uma cidade engraçada. Constrastando com o calor, o povo daqui não é aquilo que se pode chamar de acalorado. Alguns o são, mas a maioria tem ares de cidadãos de uma metrópole, como se isso os tornassem algo acima do bem e do mal. Bom, o que posso dizer é que Marília pode ser uma cidade relativamente grande, tendo em vista que possui quase 250 mil habitantes e é considerada a "capital nacional do alimento", como ostenta, orgulhosa, a plaqueta disposta na entrada da cidade. Mas não age como tal. Para mim, no máximo, é como um bom e grande feudo. O nosso senhor feudal, Dom Camarinha, excepcionalmente não é o atual prefeito, mas nem por isso manda menos. Afinal, o Bulgarelli (este sim, prefeito reeleito) é seu melhor laranja. Ops! Quis dizer amigo, foi mal.
Camarinha tem visto seu poder diminuir desde o trágico e surpreendente caso da queima do jornal. Vivo contando essa história por aí, porque é muito divertida: camarada Camarinha era o dono do maior jornal de Marília, o Diário. Quer dizer, ele não era o dono, mas mandava de qualquer maneira, porque o editor-chefe, José Ursílio, também era o seu melhor laranja. Agora eu realmente quis dizer laranja. Por uma briga envolvendo dinheiro, intrigas e apelações judiciais, Camarinha e Ursílio se separaram. O jornal, então, faz denúncias escabrosas contra o político. Camarinha se vinga. Ninguém nunca pôde provar, mas é quase certo que ele contratou uma cambada de capangas (incopetentes, diga-se de passagem) para botar fogo na sede do jornal Diário e na rádio homônima. Esta era a sua demonstração de poder. Pouco tempo depois, um grupo de mascarados entra na casa de Camarinha, para um suposto assalto mal-sucedido, e matam seu filho. Rafael Camarinha, provavelmente o herdeiro do trono, foi morto. A história, claro, estava muito mal-contada. Quem sou para afirmar alguma coisa? Só sei que os dois acontecimentos são muito catastróficos para não serem relacionados.
De qualquer maneira, nenhum desses fatos sequer foram realmente analisados. Uma cambada de outros laranjas foram para trás das grades, os peixes grandes continuam a nadar. Claro. Camarinha hoje é deputado federal. Seu filho mais velho, Vinícius, é deputado estadual. Os dois fazem parte do PSB - Partido Socialista Brasileiro. Hehe. Zé Ursílio ainda usa seu jornal para esculachar seu antigo parceiro. Ele ainda não sabe usar vírgulas e é monotemático.
O mais engraçado de tudo foram as eleições deste ano. Quem concorreu à prefeitura: Bulgarelli (o laranja), Vinícius Camarinha (o filho) e José Ursílio (a oposição sem noção). Bulgarelli venceu. Mas o clima de piada ainda continua por aqui. Afinal, que outra cidade 'grande e desenvolvida' tem tantos crimes políticos dignos de um povoado dos anos 1800 quanto Marília? É triste. Digo isso porque eu amo isso aqui. Essa terra vermelha, quente, árida, poeirenta, esturricada, onde as mulheres se equilibram em seu salto alto e protegem os cabelos da fumaça, essa partezinha de território brasileiro com cheiro de bolacha em toda parte e com um povo que reclama do frio sempre que venta.

Bem, hoje é véspera de Natal, estou em casa, com minha família, me entupindo de panetone e esperando Papai Noel chegar. Estou imensamente apaixonada por toda essa vida diferente. Quer dizer, sei que me apaixono porque sei que a vou abandonar em poucos dias, para começar tudo de novo outra vez lá no Paraná. Não sou mais criança e o Natal já perdeu aquela magia que tinha antes. O que me comove, agora, é estar onde nasci, com as pessoas que estiveram comigo por toda a minha vida, e perceber que não me enjoei de todas estas tradições. Talvez essa seja a minha maneira de dizer Feliz Natal. Talvez seja só um jeito de falar sobre um jornal queimado e sobre um moço executado.

(Original: http://odiazepam.blogspot.com/2008/12/ares-da-minha-origem.html - 24/12/08)


09 Fevereiro, 2009

O verdadeiro sonho americano

Com um carro alugado e o porta-malas lotado dos mais diversos tipos de alucinógenos, os dois cruzam estradas insólitas e desérticas. O ideal almejado é o mesmo: adentrar o coração do chamado Sonho Americano. E eles o fazem sem cerimônias, chutando a canela de quem quer que esteja na frente. Arrombam as portas do conservadorismo estadunidense, debocham dos sonhos medíocres da classe média e atropelam toda e qualquer moralidade, com o objetivo único de desnudar a América. A América do submundo, dos bares de beira de estrada, dos marginais, da cultura transgressora; a América dos loucos, que pertencera aos beatniks e, mais recentemente, aos hippies. Por fim, a América que o tal do american way of life, tão propagandeado ao resto do mundo, tentava ocultar – mas que, na realidade, é o seu mais profundo âmago.

"O que eu estava fazendo aqui? Qual era o sinificado desta viagem? Estaria eu apenas vagando por aí por alguma agitação vinda das drogas? Ou eu realmente havia vindo a Las Vegas para escrever uma reportagem? Quem são essas pessoas, esses rostos? De onde elas saíram? Elas parecem caricaturas de vendedores de carros usados de Dallas e, por Deus, há um monte delas às 4h30 de um domingo de manhã, ainda buscando o Sonho Americano, aquela visão do grande ganhador emergindo do caótico último minuto pré-amanhecer de um velho cassino de Vegas".

"Muito estranho para viver, e muito raro para morrer”, diz Raoul Duke, alter-ego de Hunter S. Thompson no livro Fear and Loathing in Las Vegas. Ele se referia ao amigo, sob a alcunha de Dr. Gonzo, mas também a si mesmo e a toda a corja de malfeitores que fazem o mundo girar. E giram com ele. Thompson escancarou o jornalismo, enfiando o dedo nas feridas da América selvagem e berrando opiniões. Mas só até 2004, quando meteu um tiro na cabeça após uma longa vida de idas e vindas, letras, medos e delírios. A busca pelo Sonho Americano ainda não acabou - ela continua imersa em todos os outros insanos sofredores apaixonados que renascem todos os dias em suas estranhezas.

06 Fevereiro, 2009

Doer

As feridas vão se abrindo ao contrário do desabrochar das flores; é algo mais corrosivo, incômodo, dá ânsia, angústia. Vão crescendo como galhos pontudos, sem direção, para todos os lados, crescendo finos, crescendo tortos, ocupando espaço, alcançando o céu. Sem folhas, só galhos. Assim vão se abrindo os buracos, carregados de botões de nada (que o nada é o que mais fere, que o tédio machuca mais que uma punhalada). E o medo, o medo de que um dia essa fome de vida acabe, que não exista mais tanto interesse por tudo quanto há no mundo que chega até a doer no peito.

Será que todas essas pessoas que a gente vê na rua ou no ônibus vivem tanto assim? Sabem, viver tanto que chega até a dar vontade de morrer? Elas vivem, certo. Mas será que choram, se dóem, e riem, e sofrem, e correm, e amam amam amam, e não dormem nunca, nem por um segundo, e quando dormem têm sonhos intranqüilos, e se angustiam, e se maravilham, e dão abraços, e se emocionam com uma nadica de coisa, e caem caem caem, e têm pequenas vitórias, e têm pequenos enormes prazeres, e falam falam falam, e ficam quietas, e querem morrer, e querer arder, e querem viver, viver!, e querem não sair da cama, e não se reconhecem no espelho, e imaginam tudo que poderiam ter sido, e sofrem até o peito não agüentar mais, e têm saudades, e bebem, e fumam, e se estragam, se acabam, se queimam queimam queimam até não sobrar quase nada, e têm raiva, e se contradizem, e querem mudar tudo, e ai! que preguiça, e pulam da cama, e escrevem freneticamente na madrugada de um domingo para segunda, poucos minutos antes de amanhecer, mas só querem escrever, soltar tudo, sangrar tudo, mesmo que seja um texto assim medíocre como esse, mas que carregue todo o peso do seu sangue, dos seus sonhos, de tudo que perderam e que amaram, de tudo o que suaram?

Meu ser, minha alma, minha lama.

30 Janeiro, 2009

Sobre pedras e sons

- yeah.

Há alguns anos atrás, não me lembro exatamente quando, eu estava faminta por música. Queria conhecer mais, sair da mesmice, ver o que havia de diferente no mundo. Não fui atrás de conhecer a CDteca dos meus pais (que era um coisa assim impressionante e assustadora, centenas de CDs de música brasileira dos mais diversos estilos) por pura rebelião juvenil. Eu não precisava de MPB, mas de rock. Rock dos bão.
Então lembrei de um amigo meu. Ele é uma daquelas pessoas queridas que a vida leva pra tão longe que até o mundo cibernético é incapaz de suportar a distância. E aquele safado sabia de música... Enfim, estava conversando com meu amigo e pedi a ele que me apresentasse a alguns sons legais. Ele respondeu que não. "Não. Você precisa conhecer por você mesma. Tem que bater aquele feeling de do it yourself, de procurar, ver o que você gosta e o que não gosta... Seja independente, essa é toda a grandeza do mundo". Depois não se conteve. Disse: "Tá, mas pra começar, você TEM que ouvir uma música. Incrível. Chama-se Gimme Shelter e é dos Stones". E me mandou a dita-cuja.
Oh, a storm is threat'ning
My very life today
If I don't get some shelter
Oh yeah, I'm gonna fade away
Foi tipo UAU. Daí ouvi de novo. E de novo. E de novo. Depois li a letra. E foi como uma revolução no meu pequenino coração. Era tudo aquilo que eu precisava: um bando de caras loucos, suados, descabelados, falando verdades em meio a berros e solos de guitarra.
War, children, it's just a shot away
It's just a shot away
I tell you love, sister, it's just a kiss away
It's just a kiss away
"A guerra está a um tiro de distância. O amor está a um beijo de distância", meu amigo me disse. E não é que é? É sim. Me lembrei de uma conversa que havia tido algum tempo antes com outro amigo. Nós concordamos que começar a amar uma pessoa é uma coisa muito fácil. É só ficar olhando, admirando seus detalhes, se impressionando com cada coisinha que ela fizer, fazer um esforço para ela se tornar extremamente interessante. Pronto. Você está interessado nela. A partir daí o bicho pega. Mas isso não interessa. A coisa é que a distância que separa a indiferença do amor é um beijo; a paz da guerra é um tiro; o estranho do normal é o uso; o bom do ruim é o tempo; o cara normal do grandioso é a morte. E assim vai.
Esse foi o começo da minha jornada musical. Poderia ter voltado mais o relógio, para contar do grande salto que eu dei aos 10, 11 anos, quando decidi que iria gostar de Hanson (heh) porque eles, pelo menos, cantavam, compunham e tocavam as próprias músicas. Decidi, naquele momento, alguns fatores básicos que determinavam a chamada 'música boa'. Mas foi depois de Gimme Shelter que eu descobri o rock clássico. Pink Floyd, Led Zeppelin, Bob Dylan, Janis Joplin. E esses dinossauros me levaram à todas as outras coisas que eu antes nem imaginava que existiam: a psicodelia dos mutantes, a bossa nova super-minimalista, o chico, o brilho brega dos anos 80, os garotos sujos do grunge, o rock dançante do começo dos anos 2000, e a mistureba que é hoje. Samba-rock, jazz 'n roll, tango eletrônico e outras maluquices a parte que fazem o mundo ficar mais bonito. E tudo começou com um riff pirado dos Stones.