22 junho, 2009

Balada

Sangrar-me inteira, não de doer mas de felicidade, para me doar inteira, retirar cada pequena coisa que me compõe, todos os pequenos cantinhos do meu ser, puxar as veias, as artérias, tirar cuidadosamente cada fio de cabelo, e até cada uma das unhas, que tanto me angustiam, remexer as tripas, vazar as lágrimas, a saliva e o suor, bem como todos o ácido do estômago, junto com seus antiácidos e os remédios pra dormir e as pílulas para parar de sangrar (parar de tomá-las). Arregaçar todas as fraturas expostas e também as da minha alma, todos os pequenos momentos em que eu sabia que estava feliz e os outros em que quis morrer, quando senti pena de mim e quando tive saudades. Melhor: todas as vezes em que estive tranquila. Todo o meu desespero, meus impulsos, meu querer maior do mundo, tudo que me assusta e me faz puxar a coberta na hora de dormir, tudo que eu mais amo. Meus arranhões nostálgicos no joelho e minhas mãos rabiscadas, meus olhos ruins, minhas ideias cansadas, meu eterno medo e minha admiração por tudo que tem qualquer coisa de vivo. Toda a minha ternura, minhas coisas boas, meu sorriso, aquilo que se sente quando vê o mar, meu sono, meus sonhos... Empilhar com carinho todas as partes à sua frente e fitá-la por um ou dois segundos antes de eu, essência, me juntar a ela. Tudo quanto sou ou já fui, tudo que poderia ter sido mas não, o que vou ser, tudo embalado em fita amarela, pra te entregar.

3 comentários:

Flávia S. disse...

você encontrou alguém pra dizer, depois de embalar seu sentimentos com papel de presente, "tome, é pra você."
clarice te inveja :)

Alyne disse...

Quanta sensibilidade transbordando.

Dalane Santos disse...

Eu me emociono toda vez que passo por aqui! Lindo, Amanda!