09 janeiro, 2009

Ando percebendo uma tendência em vários blogs por aí, que é aquele negócio de fazer retrospectiva do ano que passou. Como eu não sou boba nem nada e nem quero ficar fora da moda, vou fazer a minha também.

2008 foi o ano...

1. ... de algumas paixões musicais avassaladoras, que não tiveram muito uma ordem, elas mais se misturaram, sem começo nem fim. Foi ano de amar Radiohead, Elliott Smith e The Arcade Fire. Claro que tiveram outras bandas, um pouco menos amadas, confesso, mas que ainda assim contribuiram com todos os meus momentos de fossa dolorosa ou alegria exultante.

2. ... de correria. Nunca corri tanto, especialmente em alguns meses do segundo semestre. Me dediquei inteiramente à faculdade, aos trabalhos, aos estágios e, também, aos amigos. Muitos desafios e, sinceramente, nunca me senti tão feliz quanto estando nesse ritmo intenso. É disso que preciso, para conter o horror à rotina e ao tédio.

3. ... de descobrir que, afinal, eu não controlo a minha vida. Não, nem um pouquinho. Nem por um segundo. Quer dizer, pelo menos não as coisas que mais importam. Droga.

4. ... de querer viver e querer morrer e querer viver e querer morrer e querer viver e querer morrer e assim por diante. Não que eu realmente quisesse morrer (coisa que choca a maioria das pessoas), é só uma maneira de dizer que, bem, intensidade é uma coisa que existe e está aí.

5. ... de me apaixonar perdidamente pelo Jornalismo. E que paixão arrebatadora, que me acaba com a saúde e com as noites de sono, me faz ter idéias malucas e que encontra parceiria e lugar para crescer em alguns dos meus amigos mais queridos, que também resolveram apaixonar-se no mesmo período. Antes nos faltava maturidade, agora nos sobra paixão louca.

6. ... de me surpreender cotidianamente com pessoas extremamente interessantes que, coincidentemente - e felizmente - acontecem de ser meus amigos.

 7. ... de.... ah, sei lá. Esse ano foi tão importante em tantas maneiras diferentes que até me perco ao pensar o que aconteceu em 2008 e não em outro ano qualquer. Tudo já está guardado e misturado na minha história, já não há mais datas. Só sei que foi bom. E não pode ser separado do resto, porque tudo isso que eu vivi é o que eu sou, que me tornam eu. Se é para melhor ou pior eu não sei. Só sei que estou vivendo tudo o que me aparece pela frente. É bom sofrer, é bom ser alegre, eu sou os dois. Por isso sou feliz. Acho. Enfim, tudo é cíclico, como bem aprendi com a família Buendía, de Cem Anos de Solidão. Por isso, pra 2009 não espero nada mais do que todo a felicidade e a tristeza que me acompanharam por 2008, só que com roupagens diferentes.

08 janeiro, 2009

O filho que eu quero ter

A mãe olha para o filho na noite de Natal. Ele já cresceu, saiu de casa, desaparece cada vez com mais frequência e por mais tempo. O rapaz está sentado à mesa, servindo-se, e é impossível tirar os olhos dele.
"Como cresceu", pensa, e sente-se culpada, porque não se vê responsável por algumas das coisas que estão ali. Como ele aprendeu a falar tão sério assim, sem rir ou avermelhar-se de vergonha? E suas mãos, por quais caminhos passaram para se tornar tão firmes? E os olhos... Os olhos. Eles já devem ter chorado bastante, em momentos em que ela não podia ver. Esses olhos que agoram fitam só a comida e o relógio vez ou outra, os mesmos olhos que a percebiam com tanto fascínio há poucos anos atrás, quando ela ainda era a sua única. Como quando ela estava na cozinha a preparar a ceia de Natal de algum outro ano e sentia aquele olhar fundo, pesado, sobre ela. Ela então se virava e observava o menino sentado à mesa, não fitando a comida, mas sim ela. Ela preparando a sua refeição. Ficavam assim se olhando por alguns segundos. Ela ria, e ele a seguia. Sempre nessa ordem.
Ela caminhou até as costas da cadeira do filho e ergueu a mão para enconstar em seu ombro. Não conseguiu. Ele viraria-se e ela não suportaria aquele olhar. Ele seria mais fundo e mais pesado, porque agora carregado de nostalgia. E culpa. 
Deixe que esses olhos continuem olhando todas as coisas do mundo, não me importo, contanto que não olhem a mim. Só verão uma velha cansada, que mal sabe lidar com o que tem e que passa o dia a lembrar do passado. À beira do tanque, do fogão, no sofá vendo novela. Só uma velha. Que eles saiam daqui, saiam logo, não ouse virar a cara para mim, eu já não tenho saúde para aguentar tanta tristeza. Se fosse antes, eu diria "dorme, filhinho", e você fecharia os olhos. 
Ela recolhe a mão, limpa a lágrima e vai buscar a sobremesa.

27 dezembro, 2008

Às vezes, as pessoas que a gente vê todos os dias têm momentos de genialidade que passam despercebidos ou que são facilmente esquecidos. Por isso, queria lembrar sempre do que minha vó disse há alguns dias: o sono é o irmão da morte.

03 dezembro, 2008

Noites em claro

O estar-se só. O mundo inteiro lá fora; você cá dentro.

Você foi embora.

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê... Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.

Vem, madrugada, chega! Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo

Insônia, Álvaro de Campos

27 novembro, 2008

08's greatest

Ontem perguntaram qual foi a melhor do coisa do meu ano. Pensei bem pouquinho e respondi:

"Ter o coração partido".

Poderia discorrer muito sobre isso, fazer poesias e metáforas, falar da minha vida, mas não. Essa frase já diz tudo, e eu só queria registrar para não correr o risco de me esquecer depois.


PS: Tem visto o Diazepam? [aqui, ó]

25 novembro, 2008

11 novembro, 2008

Ametria

Não me meto
a inventar poesia

Tudo que faço
é escrever prosa
em muitas linhas
e poucas palavras.

08 novembro, 2008

De projetos e coisas

Ontem uma amiga disse que nunca tinha ouvido falar d'O Diazepam. Teve ainda a coragem de dizer que nós temos que fazer uma jogada de marketing, alguns esquemas publicitários para que ele fosse divulgado. Bem, a idéia nunca foi conseguir fama e fortuna (apesar de que elas seriam bem-vindas, se viessem), mas vamos lá.

Diazepam é um remédio para cabeça. Os loucos tomam. Somos loucos, porém não tomamos diazepam ainda. Quando boto os verbos no plural, refiro-me a mim e aos outros seis que escrevem como malucos. Malucos iluminados. Cada um tem seu dia próprio: Iasa posta aos domingos, Chico nas segundas, Mari Cioffi nas terças, eu nas quartas, Sandoval nas quintas, Pupo nas sextas e Manu nos sábados.

Em resumo, é um blog. E ele fica nesse endereço: http://odiazepam.blogspot.com/.

Somos malditos e desconhecidos, assim como quase tudo que há de bom no mundo.

30 outubro, 2008

Senhor,

Que eu veja tudo sempre com os olhos de uma criança; que as coisas continuem me causando fascínio e surpresa mesmo com o avançar do tempo; que as pequenas coisas não percam a sua beleza visível ao se tornarem comuns.

Que o vento continue belo e forte, mexendo nas folhas da árvore em frente à minha janela; que a cidade inteira nunca faça silêncio, nem mesmo durante o seu sono, pois é importante saber que ela está sempre lá; que a beleza das cores me impressione, quanto mais os tons luminosos de um amanhecer.




Que as crianças não limpem seus desenhos das paredes; que os jovens não diminuam o volume da sua música e dos seus sonhos de revolução; que os adultos tirem os sapatos por debaixo da mesa e estralem os dedos dos pés; que os velhinhos saiam de casa. Só saiam de casa para ver que o mundo ainda é o mesmo e que toda a grandeza está nos pequenos caramujos que carregam seus lares para lá e para cá, mas pouco se guardam.

Que eu não enjoe de tudo e tampouco sinta o grande temor que antecede um enfado; que eu tenha forças para começar cada dia e que as forças sejam maiores para quando o tempo for sem solução.

Que eu tenha fé, que encontre a crença em algum lugar do meu corpo cansado, pois é isto o que ampara quando a razão é insuficiente (e ela sempre o é).




Que minha família tenha saúde e que todos os dias eu sinta o horror de perdê-los, para lhes dar todo o amor do mundo. Que a preguiça não fale mais alto que a compaixão, e que eu, eu mesma, não fale mais alto que ninguém. Se for preciso, que não fale nada. Que é preciso aprender o valor do silêncio.

Que minhas palavras, quando forem ouvidas, tragam conforto e esperança. Que meus sonhos não envelheçam, nem minhas paixões e nem minhas tristezas.

Que eu caia cem vezes, para me levantar outras cem. Que eu escreva paz em minhas pálpebras e aleluia em meus lábios. Que eu não me perca nas ruínas das futilidades, das vaidades descabidas, da religião, do tédio e da ignorância. Que eu continue pequena.

Um novo dia, uma nova canção,
Amém.

14 outubro, 2008

flor




Tenho um texto na minha cabeça há algumas semanas: é sobre uma menina chamada Flor, que tem a melhor memória do mundo; ela se lembra desde que saiu do ventre de sua mãe. Vive cansada por que mesmo quando quer se esquecer, ela lembra. Não consegue dormir, quer paz. Pede, então, à mãe, que lhe costure um vestido inteiramente branco.

Com os cabelos presos, os pés descalços e o vestido, sai ao jardim. Flor se junta às companheiras de nome. Pisa em uma, duas, vê que aquilo é bom, se deita, vai rolando pra lá e pra cá por cima das pequeninas flores. Quando se levanta, percebe que seu vestido branco está delicadamente maculado das mais diversas cores, formando uma aquarela impressionista e expressionista. Flor respira fundo e sente-se tranqüila. Saiu de si. Um minuto foi esquecido.

Mas essa história fica pra outra hora.

01 outubro, 2008

Laika

Para ler ouvindo Laika, do Arcade Fire:

Quando a aeronave de Laika pousou suavemente no mar, seu banco se ejetou. Era perto da praia, então nadou até a areia. Sacudiu o sal, cheirou tudo ao redor. Não sabia onde estava, mas era feliz por ter voltado.

Começou a caminhar pela areia. Grossa, preta, com grandes pedras cor de terra escura, bem puxado pro tom de tijolos. Pulava de uma pedra para o chão, e depois outra, outra e outra, em um ziguezague sem fim. O céu era vermelho, cor de vinho. As nuvens, rosas, dançavam frenéticamente com a força do vento. Estava frio. Ia anoitecer.

Laika queria muito encontrar alguém. Sabia que, quando a vissem, iriam se lembrar de seu grande feito - afinal, fora a grande desbravadora do espaço sideral. Sua caudinha balançava suavemente, pois estava tremendamente orgulhosa de sua aventura bem-sucedida.

A noite chegara tão rápido como quando o foguete saiu rasgando da base. O vermelho tornou-se roxo, bem escuro. Ela caminhava sem parar, mas não encontrava viva alma. Chegou ao que parecia ser uma cidade fantasma. Os prédios eram altíssimos e realmente assustadores. Muita coisa havia mudado desde que partira ao infinito: nada lembrava seu antigo lar, nem de longe. Além das ruas vazias, o clima era pesado e havia um cheiro muito forte de podridão.

Todos estavam mortos. Todos. Não havia árvores, pessoas e nem outros cachorros. Só alguns ratos bem pretos e oleosos, que a olhavam de longe, soltavam um grito esganiçado e se entocavam novamente.

Seu passo vagarosamente perdeu o vigor.

Então percebeu o que fez as coisas mudarem: o tempo havia passado. Ela retornou exatos 234 anos depois de sua partida. E era como se estivesse se ausentado por apenas alguns dias; seu pêlo ainda era bonito e brilhante, seus olhos eram vivos, seu jeito de cachorra era como o de antigamente, quando ainda buscava bolinhas atiradas. O tempo não passara para ela, mas tinha sido absolutamente cruel com todas as outras coisas do mundo. O apocalipse havia acontecido debaixo de suas patinhas e ela não tomara conhecimento.

Laika estava sozinha no mundo.

24 setembro, 2008

Ano zero

Como queijo e goiabada - foi assim que você definiu. Eu sou o queijo. Minas. Aquela coisa que só serve para quebrar o doce doce. Mas não foi só isso, você disse muitas outras coisas. Disse, por exemplo, que o mais chocante não é a morte da criança no final do filme, mas sim viver em um país em ruínas. Eu não entendi.

Você pegou na minha mão e explicou que depois de toda calmaria vem a tempestade, e nunca foi o contrário. As avós estavam erradas, afinal de contas. Todas elas. Acho que eu ainda não entendia quando você tranquilamente me falou sobre todas as coisas do mundo em algumas poucas palavras. Eu ouvia e pensava 'uau, é exatamente isso, esse é o mundo', e então você advertiu: 'Não crie grandes convicções. Se o dia está bonito, é hora de fugir'.

Um dia eu estava olhando um grande livro com figuras. Você chegou perto, com um misto de curiosidade e arrogância, e me perguntou o que eu estava lendo. Respondi que não lia nada, só via as imagens. Você disse 'pois é, é assim que você é. Bem fácil de entender'.

Foi aí que eu percebi -

No meio de escombros, não existe o bom, nem o certo, nem o bonito, não existe nada, só uma grande lacuna. Tipo aqueles tracinhos da forca, que você sempre adivinhava por que dizia as vogais primeiro. Mas as ruínas não têm vogais.

E as certezas, das certezas sobrou um filete de pedras de tudo o que era grande. Quem sabe pra algum adolescente com espinhas ouvir e pensar 'sim, esse é o mundo', e aí sair pra tomar um milk shake.

O moço do filme falou 'Antes nós éramos os socialistas nacionalistas' - e inflava o peito, antes de completar, com profundo desgosto: 'agora somos os nazistas'. Esses somos nós.

21 setembro, 2008

Singelo pedido

Oi! ;)

Você já tá sabendo do Desafio da Notícia, da Band? Funciona assim: todas as semanas, duas universidades produzem uma reportagem sobre um mesmo tema. Essa semana o tema foi obesidade, e a UFPR entrou no ringue contra a Unicenp. O programa passou ontem, mas dá para ver os dois vídeos no site www.blogdacidade.com.br.

Agora, a parte importante: para decidir quem fez a melhor reportagem, há um juri técnico e outro popular. Por isso, contamos com a sua ajuda! Para votar na UFPR, é só mandar um torpedinho para o número (41) 8423-6685, com o texto 'UFPR'. Dá para votar quantas vezes quiser, e o valor é de uma mensagem normal!

E nós temos até um garoto-propaganda de peso nos apoiando! Conseguimos um vídeo do Cid Moreira (sim, A_VOZ, é um espanto!) dizendo que vota na UFPR! É só clicar no vídeo aí embaixo - e não se preocupe, não é vírus. ;)



A equipe da UFPR agradece desde já! E nos comprometemos a continuar na luta, sempre tentando melhorar!

Valeu! E contamos com o seu voto. ;)

10 setembro, 2008

Balões

Me chamam de Zé e eu nasci no dia de fevereiro que só existe de vez em quando. Dizem por aí que sou do signo da loucura. Eu não sei se é um problema... O que acontece é que quando fica outro zé na minha frente falando sem parar, eu fico sem entender palavra. Não que eu não escute, eu escuto. Mas é que a pessoa vai falando e vai ficando aquele monte de letra no ar. Eu junto as letras e vou formando palavras, mas elas nem sempre ficam do jeito que tinha que ser. Às vezes são palavras novas, que nada tem que ver com o blá que eu escuto.

Tem vezes que o lenga-lenga é tão grande que sinto que as letras não aguentam ficar juntas, elas vão derretendo... Ficam tão pesadas que caem no chão. Uma empurrando a outra pra baixo, parece uma cachoeira, e as palavras não páram, só caem. É triste de ver. Letras tão bonitas no chão. Não é assim engraçado como uma sopa de letrinhas, dá mesmo é vontade de chorar.

O povo fala pr'eu prestar atenção, para não terem que repetir. Ficam falando que eu sou distraído. A Rosa, que gosta de mim quando é de noite, diz que sou criativo, tenho idéia boa. De dia, diz que sou burro.

Ninguém entende. Ou quase ninguém, por que alguém inventou os livros em quadrinhos, onde as pessoas falam em balõezinhos. É assim que eu sou. Tirando que não tem balão, só letra. Seria mais bonito naquela forma de nuvemzinha, acho que dava pra ficar mais certinho, cada letra no seu lugar... Mas não reclamo. Uma vez eu li que quem é diferente dos outros é por que levou sopro de anjo quando era bebê. 

Talvez todo mundo seja mesmo assim. Não escutam, só vêem as letras e vão formando o que querem. Dizem que a gente vive só de ilusão e feijão, né. 

 

07 setembro, 2008

blueberry days.

04 setembro, 2008

O contrário de desaparecer: mas sentir-se tanto tanto que a própria existência torna-se imensa. A dor demais, quando maltrata o peito, ao mesmo tempo deixa um lembretezinho. "Você vive". Pelo menos isso. Ruim é quando os dias passam tão batidos que parecem que nunca existiram.


"Você ainda vai cruzar com eles na grande jornada rumo à mediocridade". Lester Bangs disse isso. Pessoas se esfolando para serem cada vez mais burras e alienadas.

21 agosto, 2008

os anjos batem na janela do quarto, pedindo para entrar. cada batida é mais choro para a menina lá dentro. um deles, o mais esperto e bonito, passa por debaixo da porta.

-- a morte não é nada mais que a ausência da vida.

-- então a vida seria a ausência da morte, e não é assim. a gente vive para ver morrer.

-- a vida é a morte, ela está aí todos os dias, em todas as coisas. olhe para o céu: as estrelas são fantasmas. cada segundo que passa é um momento morto. você já pensou que o futuro vira passado assim que você termina de pronunciar a palavra?

-- eu sei. futuro-passado-futuro-passado-futuro-passado, é um ciclo que não acaba nunca. ou melhor, acaba sim.

-- tudo se resume a uma coisa só, que não é o presente, já que ele não existe. é uma coisa que não tem nome, mas é isso que a gente vive.

-- antes eu achava que o tempo era vida, agora penso que é morte.

18 agosto, 2008

'escrevo versos como tem fome', digo, 'e como quem tem fome, me alimento do nada'. aquele não-ser que preenche tudo, as noites vazias, os domingos, que é o que eu sou e os outros também. 'escrevo versos como quem tem fome', e nem sei mas de onde tirei isso. escrevo versos como quem nasce ou morre, e como nada.

e o nada cresce, cresce tanto que ocupa tudo, e quando vejo tem aquele abismo me olhando, e ele vai crescendo também, logo está maior que eu, dá medo de ver, é bom piscar bastante, porque parece que ele diz seu nome, e ele está ali, só esperando um descuido.

faço versos como quem morre, e a morte é isso, é o nada. é por isso que bota medo na gente, e é por isso que os poetas são todos meio loucos; o nada assusta, move e preenche. aqueles versos todos sem rimas, que nem falam de amor, só de vida. eu como o nada. faço os versos para me alimentar de tédio.

cuspo fora todo o prazer, que é assim que me ensinaram. fujo pela tangente que é aquela porta aberta, mas sei que vou voltar;

(há um encanto nesses dias e noites tão vazios que dá até para tocar);

penso em mim e nos outros; o encanto contagia tudo: o quarto, a cama, o relógio que parece lua, as crianças que pedem uma moedinha para ajudar, os padres e os peixes, a seção de cosméticos no mercado, até a mim,

e eu escrevendo e escrevendo sem parar, escrevo só para ver o nada virando real.

29 julho, 2008

Havia um pouco de vodka naquela garrafa. Havia um pouco de tudo na cabeça - pensamentos com cor, cheiro, e dor. Doíam na espinha. Na cabeça. Apertava o peito... "Mas ainda tem vodka" - ofegava. O copo pendendo na mão, encharcada. Molhada de quê? De bebida? De sangue? Talvez lágrimas. O copo transparente, assim como os dias que nem passavam mais. Que distância daquele tempo em que o tempo passava, e passava a seu tempo. Era todo o tempo do mundo. Hoje simplesmente as horas escorrem por entre os dedos, como o copo quebrado no chão, há horas. A cabeça pendendo na mão seca. Afago áspero, dèja vú... A cabeça quebrada no chão, há anos. A boca inteira, único pedaço intacto, sorriu tristemente:
"Ainda tem um pouco de vodka".

é velho, eu sei.

19 julho, 2008

ontem fiz duas das minhas coisas mais preferidas do mundo.

fui de bicicleta até o final de marília, num dos pontos mais altos, bem no finalzinho da tarde. lá de cima dá para ver a cidade quase inteira e o mais belo pôr do sol no horizonte da estrada. pude ver o céu quase translúcido transfigurar-se em amarelo, laranjado forte, vermelho; depois se cansou e virou lilás e azul petróleo. assisti ao nascer da lua, às primeiras luzes da cidade se acendendo e até pude rever a estrela que tem o meu nome, aquela que brilha forte com todas as cores e fica do lado mais sul do céu assim que a noite cai.

vi o terreno baldio que a gente costumava explorar às pedaladas. ainda está lá aquela árvore solitária, em meio ao nada, que não faz mais nada a não ser assistir ao despertar e adormecer da cidade à seus pés dia pós dia.

desci as duas ramponas sem botar um dedo no freio. fui cambaleando pelos buracos, desviando dos galhos mais baixos, sentindo o vento na cara. vi o laguinho laranjado com a luz do entardecer, com seus gansos barulhentos correndo pra lá e pra cá. mais tarde vi ele de novo, só que diferente, negro, com um grande ponto brilhante reflentindo em sua metade, os patinhos recolhidos embaixo duma árvore, os casais de namorados sentados na grama e tentando se proteger do friozinho mariliense.

lá de cima do mundo, me senti feliz como nunca. compreendi muitas coisas, pude perceber como tudo quase sempre é muito simples. queria em eternizar aquele momento, mas não sabia como... minha solução foi escrever aqui. não significa nada para mais ninguém, mas vai ficar sempre guardadinho nos arquivos do meu bloguinho, para quando eu quiser reler e sentir de novo aquele vento cortando meu rosto em meio àquela luz laranjada. deu saudades de você, fábia.
________________________________

a segunda coisa preferida foi ir ao cinema com meu irmão, com milhões de guloseimas escondidas na bolsa (e na blusa), e assistir ao filme novo do batman. massa, hein.